sábado, 8 de março de 2014

Meu amigo Armandinho.

Eu tinha 20 e poucos anos, morava no Bixiga por conta de Deus e da língua do povo, e nas minhas muitas andanças por lá conheci o Armandinho do Bixiga, figura carimbada e conhecida em todo o bairro, amigo de todos os boêmios e em especial de Adoniran Barbosa. Junto com D. Lela sua mulher, tinha uma cantina que só funcionava de quinta a sábado, e corajosamente cuidava do patrimônio do bairro que ele tanto amava sendo o criador e curador do Museu do Bixiga.
Mas eu gostava mesmo era de encontrar o Armandinho nas minhas incursões noturnas pelo bairro, sempre sorrindo, adorava me encontrar e me arrastar pra "boa" da noite....que podia ser qualquer coisa entre comer um cabrito no Roperto  ou assistir o último páreo das corridas na loja do Jockey na Consolação.  Dizia: Andiamo bambina! E íamos nós pra mais uma aventura.

Uma vez fomos pra quadra da Vai-Vai sentamos à mesa da velha guarda, ele, eu , Osvaldinho da Cuíca e Thobias, eu me sentindo a rainha da cocada preta e eles achando o máximo ter uma mocinha sentada com eles, situação ganha-ganha! Uma outra vez quase morri de vergonha ao ser levada sem aviso prévio ao apartamento do Paulo Autran, deus do teatro, pra buscar uns antigos posteres do TBC que o Armando queria colocar no museu. 

Num outro dia ao me encontrar pela rua ele me diz: Bambina, passa lá em casa hoje a noite, a Lela vai fazer porpetta, claro que fui, comida boa eu nunca recuso, lá chegando me deparo com um segurança na porta pedindo meu nome, disse meu nome que não estava na lista, então fui saindo com o rabo entre as pernas quando ouço: Bambina, volta aqui! Voltei louca pra saber porque tanta comoção, e ele me responde:

- Frescura bambina, só porque tem uns artista qui!
Os "artista" eram os músicos do Free Jazz Festival que tinham fechado a casa pra um evento, e o Armandinho que não perdia tempo, me pôs pra dentro dizendo que eu era tradutora!

Com o Armandinho trabalhei na organização da Festa da Achiropita , do bolo de aniversário de Sâo Paulo e principalmente do Bloco dos Esfarrapado (que ele insistia em falar sem o "s" como o povo do Bixiga falava). Sabia que a qualquer momento andando pelo centro da cidade podia encontra-lo saindo da loja do Jockey Clube a gritar:

- Bambina! Vem comigo que hoje não tem moça pobre nem garçom de cara feia! 

Tinha ganhado nos cavalos, e sua generosidade nessas horas só acabava junto com o dinheiro. E ele ia embora feliz, subir a Rua dos Ingleses pra encontrar D. Lella, essa sim ,  de cara feia , furiosa com a arte do marido que ela adorava!

Um dia de janeiro em 1994, bem antes do bloco sair,o Armando foi contar histórias no andar de cima, com direito a velório na Assembléia e tudo mais....naquele dia o Bixiga chorou, e eu também. Meu amigo virou nome de viaduto, o museu ainda está lá, restaurado e cuidado, graças a tantos amigos, e fizeram até um cantinho pra contar as histórias dele. Vira e mexe vejo uma foto dele na internet e a saudade bate forte, saudades do meu amigo, saudades daquele tempo, saudades de um Bixiga que não existe mais.






sábado, 9 de junho de 2012

Já que queimou um.....

O Bexiga em São Paulo sempre foi um dos meus lugares favoritos, nasci lá, na R. Frei Caneca, e um pouco mais tarde, quando resolvi que era gente foi lá que aluguei o meu primeiro apartamento, um quarto e sala na R. Conselheiro Ramalho, entre a Cons. Carrão e a Manoel Dutra, quase ao lado da entrada de serviço do Teatro Sérgio Cardoso.


Eu tinha dois tipos de vizinhos, velhinhos e velhinhas de 250 anos, e os malucos, dentre os quais eu, provavelmente, estava incluída. Mas era um lugar excelente, tinha uma padaria italiana em frente do prédio, onde um dos donos se chamava Benito, mas todos os clientes o chamavam de Seu Mussolini, uma lavanderia pertinho, um mercadinho em cada esquina, salão de beleza, centro espírita, doceria e uma lanchonete tudo isso a menos de um quarteirão de distância, e a duas quadras todas as cantinas e bares da R. 13 de Maio, ou seja, pra uma menina de 20 anos era o paraíso.


Pela manhã tomava café na lanchonete da esquina, cujos proprietários Carlão e D. Inês me adotaram de imediato. E quando voltava do trabalho era lá que eu fazia hora antes de ir para a solidão do meu imenso apartamento. Era um casal de portugueses, ambos tinham vindo com suas famílias ainda pequenos para as bandas de Itapecerica e Santo Amaro, D. Inês nunca abria a boca, o Carlão por sua vez....nunca estava quieto. Me via passando e gritava: Oh menina, hoje vou fazer caldo verde! ou Hoje tem alheiras! 


A mim sempre tratou como uma dama, sempre gentil e cordato, o que não era a regra da casa. Assisti inúmeras brigas da figura com os clientes, que incrivelmente voltavam no dia seguinte, a não ser que fossem banidos, sim porque o Carlão bania clientes indesejáveis. Um dia, perdeu a linha com um cliente já muito bêbado, e pediu que ele se retirasse, como o dito bêbado não se manifestasse deu com um dos bancos do bar na cabeça dele. Claro que a história acabou no DP, mas o Carlão não se incomodava, no dia seguinte pendurou um cartaz na porta do bar:  " Faço saber a quem interessar possa, que Fulano de Tal, bêbado conhecido da vizinhança, está banido deste estabelecimento até segunda ordem"


Era absolutamente passional, dava berros com os funcionários, com o filho, com a mulher e nem se incomodava com a opinião pública, dizia " Quem paga minhas contas sou eu ora pois, então grito com quem quiser!" . Mas tinha seu lado bom, nunca negou um prato de comida a ninguém, e era amigo de seus amigos, e amigo dizia ele, é coisa pra vida inteira.
Uma vez salvou minha vida. Ao perceber que eu não aparecia há dois dias, largou o caixa com D.Inês e foi à minha casa, eu estava de cama, com febre alta e sem a menor condição de sair para comprar remédios ou procurar um médico, (naquele tempo telefone era um luxo),pois ele trouxe o médico da vizinhança  e comprou os remédios que eu precisava, não aceitando nunca que eu o pagasse de volta, e quando reclamei ele me disse que eu o pagava todas as vezes que nas serestas de sexta feira lhe oferecia um Fado.


Noutra ocasião, fritando batatas queimou um dos dedos, obviamente imaginei que ouviria todos os palavrões do dicionário, mas para minha surpresa ele disse: " Raios! Já que queimou um queima todos!" e imediatamente enfiou a mão inteira dentro da fritadeira com óleo fervente. Desnecessário dizer que quase morri de aflição, mas o Carlão com a maior tranquilidade, tirou o avental e foi para o hospital tratar da tal queimadura, obviamente sabia que não o atenderiam se tivesse queimado apenas um dedo então tratou de agravar a situação para não enfrentar a fila do hospital. 


Um dia, ao descer pra tomar meu café, a lanchonete estava fechada, na porta um cartaz: Fechado por motivo de Luto. Fui a padaria e Seu Mussolini me informou que o Carlão tinha sido assassinado. Ao perceber que seria assaltado ao entrar em casa, parou o carro e saiu gritando, chamando a atenção dos vizinhos, o ladrão mostrou a arma e ele gritou " Se fores homem atira agora", o ladrão atirou e fugiu, na sua lógica torta ele sabia que se o ladrão atirasse na rua fugiria e não ameaçaria a vida de sua família que estava em casa, uma morte passional, como foi passional a sua vida. 


E até hoje, em situações irremediáveis penso em meu amigo Carlão e repito a frase: Já que queimou um queima todos!



Eu gosto de gente!

O Grimble sempre foi um menino danado! Não bastasse me fazer sair correndo atrás do pôr-do-sol na nossa adolescência, agora me propõe essa maluquice, escrever todos os dias. E escrever faz parte de nossa infinita amizade, poemas e canções adolescentes, cartas semanais e hoje emails e bate-papos na interntet. Então topei, topamos cada um fazendo a sua parte, ele escrevendo um romance e eu escrevendo crônicas. O difícil era saber sobre o que, então pensei, contar histórias de personagens reais.


Afinal, minha vida sempre foi muito privilegiada, vivi em muitos lugares, tive a oportunidade de  conhecer pessoas incríveis, pois tenho por princípio apreciar o seres humanos exclusivamente pelos seus méritos individuais, não importando cor, idade ou classe social.  Eu gosto de gente!


Não se iludam, oposto ao que possa parecer o início desta história,  nunca consegui me adaptar a grupos sociais específicos, o que eu gosto é de ter o prazer de circular entre todos eles, observando, ouvindo, conhecendo. Sempre digo que não crio raízes, jogo sementes, que florescem em solo fértil. Foi assim que conheci as tais gentes que tanto me encantam. Desde próceres intelectuais e políticos até personagens do dia a dia, que passam desapercebidos no meio da multidão, mas que sem querer esbarraram por mim um dia. E de verdade, sem desmerecer ninguém, a eles devo as minhas melhores histórias de vida. O dono da venda que nunca se esquecia de me dizer bom dia, a faxineira que se ajoelhou pra rezar por mim em um hospital público cheio de gente, o garçom que sempre me trazia uma sobremesa de graça, o velho italiano que cantava na rua. 


E hoje, diante do desafio de escrever uma crônica por dia, percebo que essas pessoas são os personagens da comédia romântica que se tornou a minha vida, portanto é sobre eles que vou falar, devolvendo-lhes em homenagem o muito que fizeram por mim ao longo desses, nem tantos, anos vividos.


Chamar isso de desafio talvez seja injusto, pois ter a oportunidade de reviver estas histórias será, certamente, um prazer. Só posso pedir que as Musas me iluminem,  meus fantasmas me ajudem e minha memória não me traia. Amém!