O Bexiga em São Paulo sempre foi um dos meus lugares favoritos, nasci lá, na R. Frei Caneca, e um pouco mais tarde, quando resolvi que era gente foi lá que aluguei o meu primeiro apartamento, um quarto e sala na R. Conselheiro Ramalho, entre a Cons. Carrão e a Manoel Dutra, quase ao lado da entrada de serviço do Teatro Sérgio Cardoso.
Eu tinha dois tipos de vizinhos, velhinhos e velhinhas de 250 anos, e os malucos, dentre os quais eu, provavelmente, estava incluída. Mas era um lugar excelente, tinha uma padaria italiana em frente do prédio, onde um dos donos se chamava Benito, mas todos os clientes o chamavam de Seu Mussolini, uma lavanderia pertinho, um mercadinho em cada esquina, salão de beleza, centro espírita, doceria e uma lanchonete tudo isso a menos de um quarteirão de distância, e a duas quadras todas as cantinas e bares da R. 13 de Maio, ou seja, pra uma menina de 20 anos era o paraíso.
Pela manhã tomava café na lanchonete da esquina, cujos proprietários Carlão e D. Inês me adotaram de imediato. E quando voltava do trabalho era lá que eu fazia hora antes de ir para a solidão do meu imenso apartamento. Era um casal de portugueses, ambos tinham vindo com suas famílias ainda pequenos para as bandas de Itapecerica e Santo Amaro, D. Inês nunca abria a boca, o Carlão por sua vez....nunca estava quieto. Me via passando e gritava: Oh menina, hoje vou fazer caldo verde! ou Hoje tem alheiras!
A mim sempre tratou como uma dama, sempre gentil e cordato, o que não era a regra da casa. Assisti inúmeras brigas da figura com os clientes, que incrivelmente voltavam no dia seguinte, a não ser que fossem banidos, sim porque o Carlão bania clientes indesejáveis. Um dia, perdeu a linha com um cliente já muito bêbado, e pediu que ele se retirasse, como o dito bêbado não se manifestasse deu com um dos bancos do bar na cabeça dele. Claro que a história acabou no DP, mas o Carlão não se incomodava, no dia seguinte pendurou um cartaz na porta do bar: " Faço saber a quem interessar possa, que Fulano de Tal, bêbado conhecido da vizinhança, está banido deste estabelecimento até segunda ordem"
Era absolutamente passional, dava berros com os funcionários, com o filho, com a mulher e nem se incomodava com a opinião pública, dizia " Quem paga minhas contas sou eu ora pois, então grito com quem quiser!" . Mas tinha seu lado bom, nunca negou um prato de comida a ninguém, e era amigo de seus amigos, e amigo dizia ele, é coisa pra vida inteira.
Uma vez salvou minha vida. Ao perceber que eu não aparecia há dois dias, largou o caixa com D.Inês e foi à minha casa, eu estava de cama, com febre alta e sem a menor condição de sair para comprar remédios ou procurar um médico, (naquele tempo telefone era um luxo),pois ele trouxe o médico da vizinhança e comprou os remédios que eu precisava, não aceitando nunca que eu o pagasse de volta, e quando reclamei ele me disse que eu o pagava todas as vezes que nas serestas de sexta feira lhe oferecia um Fado.
Noutra ocasião, fritando batatas queimou um dos dedos, obviamente imaginei que ouviria todos os palavrões do dicionário, mas para minha surpresa ele disse: " Raios! Já que queimou um queima todos!" e imediatamente enfiou a mão inteira dentro da fritadeira com óleo fervente. Desnecessário dizer que quase morri de aflição, mas o Carlão com a maior tranquilidade, tirou o avental e foi para o hospital tratar da tal queimadura, obviamente sabia que não o atenderiam se tivesse queimado apenas um dedo então tratou de agravar a situação para não enfrentar a fila do hospital.
Um dia, ao descer pra tomar meu café, a lanchonete estava fechada, na porta um cartaz: Fechado por motivo de Luto. Fui a padaria e Seu Mussolini me informou que o Carlão tinha sido assassinado. Ao perceber que seria assaltado ao entrar em casa, parou o carro e saiu gritando, chamando a atenção dos vizinhos, o ladrão mostrou a arma e ele gritou " Se fores homem atira agora", o ladrão atirou e fugiu, na sua lógica torta ele sabia que se o ladrão atirasse na rua fugiria e não ameaçaria a vida de sua família que estava em casa, uma morte passional, como foi passional a sua vida.
E até hoje, em situações irremediáveis penso em meu amigo Carlão e repito a frase: Já que queimou um queima todos!
Eu tinha dois tipos de vizinhos, velhinhos e velhinhas de 250 anos, e os malucos, dentre os quais eu, provavelmente, estava incluída. Mas era um lugar excelente, tinha uma padaria italiana em frente do prédio, onde um dos donos se chamava Benito, mas todos os clientes o chamavam de Seu Mussolini, uma lavanderia pertinho, um mercadinho em cada esquina, salão de beleza, centro espírita, doceria e uma lanchonete tudo isso a menos de um quarteirão de distância, e a duas quadras todas as cantinas e bares da R. 13 de Maio, ou seja, pra uma menina de 20 anos era o paraíso.
Pela manhã tomava café na lanchonete da esquina, cujos proprietários Carlão e D. Inês me adotaram de imediato. E quando voltava do trabalho era lá que eu fazia hora antes de ir para a solidão do meu imenso apartamento. Era um casal de portugueses, ambos tinham vindo com suas famílias ainda pequenos para as bandas de Itapecerica e Santo Amaro, D. Inês nunca abria a boca, o Carlão por sua vez....nunca estava quieto. Me via passando e gritava: Oh menina, hoje vou fazer caldo verde! ou Hoje tem alheiras!
A mim sempre tratou como uma dama, sempre gentil e cordato, o que não era a regra da casa. Assisti inúmeras brigas da figura com os clientes, que incrivelmente voltavam no dia seguinte, a não ser que fossem banidos, sim porque o Carlão bania clientes indesejáveis. Um dia, perdeu a linha com um cliente já muito bêbado, e pediu que ele se retirasse, como o dito bêbado não se manifestasse deu com um dos bancos do bar na cabeça dele. Claro que a história acabou no DP, mas o Carlão não se incomodava, no dia seguinte pendurou um cartaz na porta do bar: " Faço saber a quem interessar possa, que Fulano de Tal, bêbado conhecido da vizinhança, está banido deste estabelecimento até segunda ordem"
Era absolutamente passional, dava berros com os funcionários, com o filho, com a mulher e nem se incomodava com a opinião pública, dizia " Quem paga minhas contas sou eu ora pois, então grito com quem quiser!" . Mas tinha seu lado bom, nunca negou um prato de comida a ninguém, e era amigo de seus amigos, e amigo dizia ele, é coisa pra vida inteira.
Uma vez salvou minha vida. Ao perceber que eu não aparecia há dois dias, largou o caixa com D.Inês e foi à minha casa, eu estava de cama, com febre alta e sem a menor condição de sair para comprar remédios ou procurar um médico, (naquele tempo telefone era um luxo),pois ele trouxe o médico da vizinhança e comprou os remédios que eu precisava, não aceitando nunca que eu o pagasse de volta, e quando reclamei ele me disse que eu o pagava todas as vezes que nas serestas de sexta feira lhe oferecia um Fado.
Noutra ocasião, fritando batatas queimou um dos dedos, obviamente imaginei que ouviria todos os palavrões do dicionário, mas para minha surpresa ele disse: " Raios! Já que queimou um queima todos!" e imediatamente enfiou a mão inteira dentro da fritadeira com óleo fervente. Desnecessário dizer que quase morri de aflição, mas o Carlão com a maior tranquilidade, tirou o avental e foi para o hospital tratar da tal queimadura, obviamente sabia que não o atenderiam se tivesse queimado apenas um dedo então tratou de agravar a situação para não enfrentar a fila do hospital.
Um dia, ao descer pra tomar meu café, a lanchonete estava fechada, na porta um cartaz: Fechado por motivo de Luto. Fui a padaria e Seu Mussolini me informou que o Carlão tinha sido assassinado. Ao perceber que seria assaltado ao entrar em casa, parou o carro e saiu gritando, chamando a atenção dos vizinhos, o ladrão mostrou a arma e ele gritou " Se fores homem atira agora", o ladrão atirou e fugiu, na sua lógica torta ele sabia que se o ladrão atirasse na rua fugiria e não ameaçaria a vida de sua família que estava em casa, uma morte passional, como foi passional a sua vida.
E até hoje, em situações irremediáveis penso em meu amigo Carlão e repito a frase: Já que queimou um queima todos!
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